Retiro Espiritual dos Seminaristas
21/02/2020
Retiro dos Surdos
04/03/2020

Em cada retiro somos convidados a fazer um mergulho profundo na Palavra de Deus para meditá-la e deixar que o Verbo fale em nós. O silêncio nos é pedido para que possamos, no mais íntimo de nós, escutar as nossas vozes interiores que muitas vezes se encontram abafadas. Até quando silenciamos o nosso falar, ainda somos capazes de fugir de nós mesmos. Por isso, três palavras foram importantes para iniciarmos o nosso retiro: SILÊNCIO, ESCUTA e FALA, para podermos vivenciar uma relação com Deus.

Ao fazermos o movimento de subir a montanha foi necessário que deixássemos alguns excessos que nos impedissem de fazermos a nossa subida. E como compromisso, cada um de nós à sua maneira, se esforçou para vivenciar o retiro, ou seja, subir até o topo da montanha que é lugar do encontro, da oração e da contemplação.

A vida é uma dádiva de Deus. É uma das provas de amor mais bonitas que existem. A vida ganha um significado sublime quando é colocada a serviço do outro. Isso só é possível quando deixamos Cristo agir em nós. Ao longo das nossas vidas temos que fazer as nossas escolhas, tomar decisões e assumir as suas consequências, sendo elas boas ou más. Hoje, nós estamos aqui, porque escolhemos trilhar o mesmo caminho em direção ao sacerdócio.

O nosso sonho não é algo qualquer e simples, mas é um doar-se para o outro. É deixar que o Espírito Santo nos guie para que o outro possa ver e sentir em nós o próprio Cristo. É uma missão que vem acompanhada de poder e autoridade. Um chamado que comporta decisão e compromisso. Um chamado de humildade e de perdão. O evangelista Mateus nos aconselha: “portanto, quando tu estiveres levando a tua oferta para o altar, e aí te lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta aí diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão. Só então vai apresentar a tua oferta” (Mt 5,23-24). A pecadora do evangelho de Lucas com o seu testemunho e com o frasco de alabastro nos ensina a humildade e o despojamento de entregar a vida aos pés de Jesus (Lc 7, 31-38). A nossa vida de discipulado só faz sentido quando entregamos a nossa vida por completa a Jesus e a partilhamos com os nossos irmãos. A nossa vida dever ser oferta e sacrifício que sempre devemos renová-la no altar do Senhor. Da mesma forma que oferecemos o pão e o vinho na Missa e que pelas mãos do sacerdote são transformados em corpo e sangue de Nosso Senhor, assim deve ser transformada a nossa vida: não podemos mais ser os mesmos, pois O reconhecemos, “não estava ardendo o nosso coração, quando ele nos falava pelo caminho e nos abria as Escrituras?” (Lc 24, 32).

Quando partilhamos sobre as nossas experiências vocacionais percebemos que o Senhor fez e faz um chamado especial para cada um de nós, pois Ele se apresenta conforme a singular história de vida de cada um de seus filhos. E Jesus nos chamou para vivenciarmos uma missão especial que poderá ser selada ou não com o sacerdócio. Jesus continua a chamar homens para segui-lo, foi assim com os seus discípulos e também com Pe. Márcio, Pe. Francisco, Alexandre, André, Arthur, Edvan, Fernando, Francis, João Henrique, João Paulo, Jonathan, Júlio, Júnior, Kairon, Lucas, Luciano, Marlon, Newton, Paulo, Pedro, Robson, Wellington e Willian.

Ao fazermos a leitura do texto bíblico da Transfiguração do Senhor (Mc 9,2-10) encontramos elementos que nos ajudam a vivenciar a experiência daqueles que seguem Jesus. A experiência do encontro, da oração, da presença, do testemunho, e às vezes do medo. Em outra passagem Jesus sente medo e ora ao Pai: “Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice. Contudo, não seja como eu quero, mas como tu queres” (Mt 26,39). Muitas vezes, em nossa solidão, bebemos os cálices amargos que a vida nos oferece e no qual somos obrigados a beber, muitas vezes sozinhos ou compartilhados com aqueles que são mais próximos de nós.  E do nosso coração é elevada uma prece: “Fica conosco [Senhor], pois já é tarde e o dia declina (Lc 24, 29).

Às vezes no caminho da nossa vida esquecemos que Deus caminha conosco. Também esquecemos que somos humanos. Que passamos por desafios e tribulações. Que não estamos bem o tempo todo. Que sentimos medo, dor, stress, ansiedade, pânico... Corremos o risco de tratar a nossa vida e as nossas ações de maneira fragmentada, de forma dualista: bem e mal, luz e treva, alegria e tristeza, puro e impuro etc. Podemos esquecer que somos sujeitos integrais e que dentro de nós existe uma explosão de desejos, pulsões, sentimentos, sonhos e alegrias. Somos seres de sexualidade, somos sagrados e profanos, somos santos e pecadores, extrovertidos e introvertidos, faladores e silenciosos, agitados e quietos, enfim somos esse ser complexo e inserido no mundo. Com liberdade devemos conviver com tudo que existe em nós. Não tem como arrancar esses sentimentos do ser humano, mas tem como trabalhar e deixar aquilo que é mais saudável florescer. Sem nos tornar pessoas infelizes, mal amadas, rabugentas, mas pelo contrário, tornar pessoas capazes de irradiar a alegria da vida, da escolha feita, do discipulado, da comunhão, e mais ainda, de sermos proclamadores do Evangelho.

É preciso transfigurar com Jesus no Monte Tabor. Deixar ser transformado pelo próprio Cristo, ser lapidado por Ele. A transfiguração é possível quando relacionamos com o Pai, pelo Filho, na força do Espírito Santo em uma plena comunhão. Uma comunhão transparente, sincera, verdadeira e respeitosa. Só é capaz de passar pela experiência da transfiguração quem descobriu em seu interior as suas principais limitações ou os seus “fantasmas”. Assim será capaz de colocar-se por inteiro diante daquele que o chamou para vida e dessa forma poder dizer como Santo Agostinho:

Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova... Tarde Te amei! [...] Eu era inquieto, alguém que buscava felicidade, buscava algo que não achava... Mas Tu Te compadeceste de mim e tudo mudou, porque Tu me deixaste conhecer-te. Entrei no meu íntimo sob a Tua Guia e consegui, porque Tu Te fizeste meu auxílio. [...] Eis que estavas dentro, e eu, fora – e fora Te buscava, e me lançava, disforme e nada belo, perante a beleza de tudo e de todos que criaste. Estavas comigo, e eu não estava Contigo... Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Chamaste, clamaste por mim e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste, e a Tua Luz afugentou minha cegueira. Exalaste o Teu Perfume e, respirando-o, suspirei por Ti, Te desejei. Eu Te provei, Te saboreei e agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me e agora ardo em desejos por Tua Paz! (Santo Agostinho, Confissões).

Deixemos ser transfigurados com Cristo, ou melhor, TRANSFIGUREMO-NOS COM ELE.

Júlio César Santos

Retiro de Carnaval 2020

Santa Maria de Itabira/MG

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