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Cartas póstumas
07/04/2021

Assim nos diz Deus: "[...] és pó, e pó te hás de tornar.” (Gn 3,19). Como questionado por padre Antônio Vieira (1998): como pode um pó tornar a ser aquilo que já é? Como é possível que deixe a condição de pó para retornar a um outro estado de pó? Aqui vemos que é grande a diferença entre o pó e o pó e que de pó em pó caminhamos rumo a Deus. Para tratarmos disso, três pontos nos são necessários nesta reflexão: o pó que fomos, o que somos e o que seremos.

Fomos o pó porque do pó viemos. Isso nos leva a nos questionarmos: o que somos para que Deus se ocupe de nós (Sl 8,5)? Ora, a vida do homem nada mais é do que uma grande roda da fortuna: ora ele desce mas ora sobe; ora deseja o pecado, ora aquele que se fez pecado (2 Cor 5, 21); ora quer tudo, ora o Tudo; ora não reza, ora ora. Assim, fomos criados tão frágeis que Cristo desceu de sua majestade e se dignou vir ao nosso encontro. Eis que Ele está tão distante: onde seus anjos lhe formam uníssono coro e lhe enaltecem com belos adágios. Contudo, que grata surpresa! Ei-lo também aqui tão perto, mais perto de nós do que nós mesmos, e vem para nos procurar e nos reconduzir. Logo, dizemos que viemos do pó já que fomos feitos frágeis, motivo pelo qual Deus cuida tanto de nós.

Somos o pó porque o escolhemos ser. Se o pó que fomos indica nossa limitação natural, o pó que somos indica nossa decadência pelo pecado. Desse modo, adentramos tão profundo em nossas trevas que nos perdemos dentro de nós. E como sairemos de nós se nem mesmo nós nos encontramos? E se nos encontrássemos para onde iríamos após fugirmos de Deus? Corremos para tão longe dele que só ele pode nos buscar; nos escondemos tão bem de nós que já nem sabemos mais onde estamos. Contudo uma coisa sabemos: o pecado nos tornou outro pó, pior do que o primeiro, todavia o amor de Cristo nos impele a deixarmos de sê-lo para nos tornarmos o próximo pó.

Seremos pó porque assim no-lo faremos diante da grandeza de Deus ao reconhecer nossa pequenez. De fato, existem aqueles que são mortos pela morte, porém nós somos chamados a sermos mortos pelo amor do Senhor (Ap 14,13). Nessa Semana Santa, Deus nos prepara para sermos esse pó: sujeira aos olhos do mundo, mas tesouro aos de Deus. Assim, devemos nos unir em arrependimento e nos isolar em contrição já que unidos nos isolamos de nós e isolados nos unimos a Deus. Desse modo, nos esvaziamos de nosso nada e nos enchemos do nosso Tudo. Destarte, reconhecendo o pó que fomos e contritos pelo pó que somos, vamos nos configurando ao verdadeiro pó que somos chamados a ser: aquele que tornará a Deus nas minas celestes. Concluindo essa ideia, escrevi o seguinte poema que há de expressar como será esse dia no céu:

Minerador, que jamais erra,

E se recorda, ao ver a terra,

Do rubi que perdera antes.

E o fez buscar joias brilhantes:

diamantes

Quando olhou, que infeliz supressa:

Não achou nenhuma riqueza.

Mas o que encontrou dava dó:

Tão pobre e cinza, no cipó,

o pó.

Pensais que ele desanimou?

Nada disso, o pó peneirou.

Houve tanta labuta ali

mas reouve o que o fez sorrir:

seu rubi.

Seminarista Wellington Rosa de Souza, 3° ano de Filosofia

Referência

VIEIRA, Padre Antonio. Sermões: Sermão da Quarta-feira de Cinza. Erechim: Edelbra, 1998. v.1.


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Pedro de Paula Ferreira

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