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A todos os defuntos ressuscitados

Nova Jerusalém, 5 de abril de...

Assunto: Convite à saída das sepulturas

Queridos amigos, venho por este meio, convidá-los a saírem das sepulturas para vivermos juntos esta páscoa com vivas ânsias de amor pelo Cristo ressuscitado. “Pois, se fomos de certo modo identificados a Jesus Cristo por uma morte semelhante à sua, seremos semelhantes a ele também pela ressurreição.” (Rom 6,5). Por conseguinte, de duas coisas falo nesta carta: da morte da qual padecem hoje e da ressureição da qual provarão.

Eis que vocês são defuntos e sei que isso é um escândalo e parece ofensivo. Perguntar-se-são: mas como podemos estar mortos se enxergamos, se aspiramos cheiros e se andamos normalmente? Essa dúvida me é engraçada pois eu mesmo também tive-a quando meu amigo Brás Cubas me escreveu suas memórias. O que mais me deixou perplexo no escrito do defunto é que não era de um autor defunto mas de defunto autor (ASSIS, 1978), ou seja, não me encantei por ter lido grandes feitos de um autor que morreu mas pelo grande feito de um autor morto conseguir escrever. Também o mesmo aconteceu com São Paulo, mas com a diferença que ele morreu de outra morte. Enquanto aquele “morreu de morte morrida”, como as pessoas humildes dizem, este morreu pela fé de forma que não mais vive mas é Cristo quem nele vive (Gl 2,19-20).

Perceber isso me deixou tão surpreso que eu, também morto, resolvi escrever esta carta póstuma. Ai! meu Deus! mas que grande descuido o meu em não ter me apresentado no início! Na verdade, por favor não riem de mim, porque eu até queria dizer meu nome mas não consigo me lembrar de quem sou. Será que é porque mortos não tem mais identidade? Ou será porque, quando o homem velho morre, o novo se torna um com Cristo?  Ora, disso eu não sei mas sei de uma coisa: que da mesma forma também vocês, estando vivos, na verdade, estão mortos (2 Cor 6,9) porque nessa semana santa foram crucificados junto ao Cordeiro Imolado (Rm 6,6).[1]

“Se, pois, morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele.” (Rm 6,8). Oh! luto desenlutado! Oh! excelsa alegria velada! É exatamente porque estão mortos, é que estão vivos. Dizem estar vivos porque enxergam? Mais vivos estão os mortos que não conseguem mais enxergar as dores do mundo. Dizem estar vivos porque aspiram cheiros? Mais vivos estão o mortos que só conseguem aspirar às coisas do alto (Cl 3,1).  Dizem estar vivos porque podem andar? Muito mais vivos estão os mortos que não andam mais em caminhos que não sejam o Caminho.

Enfim, deixem de estar vivos para estarem mortos e então deixarão as sepulturas para estarem verdadeiramente vivos. Então, saiam das sepulturas, abram os sorrisos, escancarem a alegria, se rejubilem, pois o Senhor ressuscitou e também nós com Ele. Mas se já nos é grande a alegria do homem novo na terra, muito maior será no paraíso. Lá cantaremos um canto novo e, ao som da cítara suave, soaremos santas sinfonias, e tocaremos sinos e címbalos sonoros onde o Senhor nos satisfará.  Ah! Que mistério sublime! Tão arrebatador que até nos esquecemos de todo o resto. Talvez seja por isso que me esqueci de colocar a minha cidade nesta carta, informação que toda boa carta deve ter; nossa! também me esqueci de colocar o ano! Mas, para ser sincero, não consertarei porque não posso perder tempo olhando para o passado. Desculpem-me as pressas ao escrever, mas preciso encerrar logo para desfrutar das delícias do banquete do Cordeiro. Por isso, a única coisa que direi é que o ano dessa carta é o ano do Kairós e o local de onde falo é de dentro dos átrios de Cristo, pois quando o sangue e a água jorraram do seu peito, se abriu uma morada para que nos abrigássemos em seu coração. Além disso, o leitor atento perceberá que cometi outro erro, ter escrito “cartas” no plural sendo que essa é só uma. Mas aqui me defendo porque está no plural: a primeira carta é essa que escrevo e as demais vocês me mandarão quando estivermos juntos no Paraíso.

[1] Segue abaixo as fotos referentes  a semana santa do nosso Seminário.

Ass.: Um vivo defunto

Quinta-feira Santa

Sexta-feira Santa

Sábado Santo 

Domingo de Páscoa

A BÍBLIA Sagrada - Ave Maria: Ave Maria. Ave Maria. Brasil: Editora Ave Maria, 1959. 1632 p. Tradução de: Missionários do Imaculado Coração de Maria.

ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Ed. Abril Cultural, 1978. 346 p.

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