Os discípulos amados
30/06/2021

Pequeno relato sobre um trabalho de conclusão de curso

 

            Primeiramente, vamos conhecer um pouco sobre o filósofo, santo Alberto Magno. Alberto Magno (1193 – 1280) nasceu na Alemanha no final do século XII, procedente da nobre linhagem dos Bollstadt, foi frade da Ordem dos Pregadores, Dominicanos, professor na faculdade de Paris, e, entre seus alunos teve Ulrico de Estrasburgo, Tomás de Aquino, dentre outros. Chamado ainda em vida por seus contemporâneos de “Magnus”, ou, “o Grande”, devido à vastidão de seu conhecimento e seus escritos, Alberto Magno dedicou desde cedo a estudar as chamadas “artes liberais” gramática, retórica, dialética, aritmética, geometria, astronomia e música, dedicando-se à cultura geral do seu tempo e também de épocas anteriores. Ele manifestou grande interesse pelas ciências naturais, por isso em 1931, em sua canonização pelo Papa Pio XI, foi proclamado Doutor da Igreja, e, pouco tempo depois, pelo Papa Pio XII, foi nomeado padroeiro dos cultores das ciências naturais. Santo Alberto Magno seguindo os passos fundamentais de Aristóteles, leva à posteridade riquíssimas contribuições de sua filosofia, tornando-se um verdadeiro expoente da recepção aristotélica no Ocidente medieval no século XIII.

    A Idade Média é comumente chamada de “Idade das trevas”. Muitos caracterizam esse período como obscuro, sem transformações nas formas de viver, agir e pensar. Por muito tempo, a Idade Média foi vista como uma época de insignificante desenvolvimento científico, tecnológico e artístico. Entretanto, ao analisarmos, de fato, os acontecimentos desse período, observamos que há controvérsias nessas considerações. Grandes mudanças foram vistas no Ocidente europeu daquela época, como por exemplo o crescimento das cidades, que trouxe consigo enormes transformações sociais, culturais e também econômicas. Nesse período, de acordo com Le Goff (2005), o feudalismo é superado, o comércio mundial foi alterado, há avanços na produção agrícola, desenvolveram-se importantes trabalhos artísticos, em especial na arquitetura; através dos afrescos, mosaicos e vitrais. Houve ainda, com o surgimento das universidades, transformações e grandes melhoramentos no campo educacional. Tal ambiente de efervescência das estruturas educacionais, revela propriamente um acontecimento filosófico estimulado por grandes intelectuais, filósofos e teólogos. É também nas universidades medievais que a filosofia se expande a diversos setores da atividade universitária e principalmente entre os teólogos.

         Figura entre esses mestres medievais, Alberto Magno, filósofo, teólogo e professor universitário. Sua época foi marcada por muitas crises e conflitos conjugados às transformações que ocorreram na forma de viver do homem medieval. Mudanças essas influenciadas pelas novas relações de sobrevivência ou novas formas de produzir a vida. Foi nesse contexto que Alberto Magno encontrou um caminho propício para colocar em prática seus dons intelectuais, contribuindo fortemente para a recepção da filosofia aristotélica na perspectiva cristã.

         Em relação à natureza do intelecto, Alberto Magno nos vai apontando todo um percurso até chegar à conclusão de que o intelecto humano tem natureza divina, ou seja, o mestre de Colônia nos esclarece que a natureza da alma intelectual no homem procede da causa primeira de todas as coisas, ou seja, o Deus criador de todas as coisas. Conhecer sobre a natureza intelectual e sobre a ciência do inteligível é de suma importância para todos nós, pois, como o próprio santo Alberto Magno diz: “somos intelecto”. Investigar e conhecer sobre a ciência do intelecto e do inteligível traz uma recompensa: “conhecendo essas coisas, o homem conhece o que propriamente é, pois é somente o intelecto, e conhece, ademais os princípios daquilo que produz nele a felicidade contemplativa” (ALBERTO MAGNO, 2017a, p. 27).

        A emanação do intelecto humano, procede de uma causa primeira que lhe é anterior, superior e perfeitíssima, e, por isso nossa natureza intelectual se aproxima da perfeição que lhe causa. Desse modo, a capacidade intelectiva do homem participa da inteligência do primeiro princípio, da causa primeira, que é Deus. Por isso vemos no livro do Gênesis que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança (Gn 1, 26-27). De acordo com o mestre de Colônia “[…] o animal recebe sua virtude cognitiva daquilo que conhece todas as coisas de modo primeiro e perfeito. (ALBERTO MAGNO, 2017a, p. 29).

        Posto isso, vemos em santo Alberto Magno, que o homem pode e deve buscar aperfeiçoar-se, ou seja, aperfeiçoar seu intelecto. E, um modo eficaz para isso, considerado por nosso autor, é pelo estudo. Pelo estudo o homem adquire uma intelecção verdadeira e própria. Pelo estudo a alma é aperfeiçoada e o homem conhece a si mesmo. Segundo Étienne Gilson (1995, p. 637), “essa é a atividade normal do entendimento humano”. Em outros termos, “a vida normal de um ser verdadeiramente humano é atualizar assim seu intelecto possível, elevando-se progressivamente do sensível aos conhecimentos inteligíveis mais elevados: física, matemática, ciência da alma, ciência de Deus.”. Gilson (1995, p. 638) ainda constata que:

          Os que não se preocupam em conhecer, mas passam a vida como simples intelectos possíveis, não vivem como homens, vivem como porcos. Ao contrário, o homem de estudos emprega toda a sua vida para atualizar o seu intelecto, isto é, ele mesmo. Porque não há que se enganar: o que os filósofos chamam de “intelecto adquirido” (intellectus adeptus) é, de fato, em primeiro lugar, o conhecimento inteligível progressivamente acumulado no intelecto pelo estudo, mas é, na mesma medida, o próprio intelecto.

            Dessa forma, vemos a importância dos estudos para o aperfeiçoamento intelectual humano. O homem deve buscar atualizar seu intelecto elevando-se progressivamente das coisas sensíveis aos conhecimentos inteligíveis mais elevados, até assemelhar-se mais e mais a Deus, como nos mostra santo Alberto Magno, num modo de participação de nosso intelecto com o intelecto divino.

              É a partir do intelecto e do conhecimento sobre ele que nós chegamos a uma elevada capacidade de compreensão e a uma reflexão crítica acerca de tudo que nos cerca, pois, pela razão, o homem, desde tempos remotos, sempre buscou entender a causa primeira de todas as coisas. A investigação sobre a emanação intelectual na concepção de Alberto Magno nos mostrou, que a riquíssima contribuição do filósofo alemão para a elucidação de várias querelas existentes no Ocidente medieval, principalmente sobre o ser e a inteligência, se faz sentir ainda em nossos dias. Toda busca e todo conhecimento adquiridos sobre o intelecto, é de suma importância para cada um de nós, pois somente através do conhecimento, e, do conhecimento de si mesmo, o homem será capaz de construir sua liberdade pessoal e intelectual. Por isso, meu irmão e minha irmã, busque conhecimento, estude, aperfeiçoe-se, atualize-se, você é intelecto. O estudo nos aproxima mais e mais das coisas divinas.

Seminarista Robson Afonso, 1°ano de Teologia.

REFERÊNCIAS

ALBERTO MAGNO. O ser e a Inteligência. Tradução de Tiago Gadotti. Introdução, coordenação e notas de Sidney Silveira. Porto Alegre: Concreta, V.1, 2017a.

BÍBLIA. Português. A Bíblia de Jerusalém. 1. ed. São Paulo: Paulus, 2002.

GILSON, Étienne. A Filosofia na Idade Média. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

LE GOFF, Jacques. A Civilização do Ocidente Medieval. Tradução de José Rivair de Macedo, Bauru, SP: EDUSC, 2005.

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