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“Pregue o Evangelho o tempo todo. Se necessário use palavras.” (Atribuída a São Francisco de Assis)

Todos os vocacionados à vida presbiteral sentem-se impelidos a um desejo ardente de pregar e, por isso, estudam, meditam, rezam e se preparam para anunciar as maravilhas do Senhor. Contudo São Francisco nos desconcerta ao dizer que “se necessário usemos as palavras”. Acaso haveria modo de se pregar sem se utilizar de palavras? Haveríamos de falar sem falar e de pregar sem pregar? A isso respondo que não só é possível como é necessária a pregação sem palavras pois, antes de pregarmos palavras, devemos pregar a Palavra já que é mister a diferença entre palavras de Deus e a Palavra de Deus. Por essa razão, primeiramente, falaremos da Palavra pregada sem palavras; depois, do modo de se pregá-la sem pregar.

Cristo é a Palavra, Sabedoria eterna, pronunciada pela boca de Deus. Imaginem irmãos tal espetáculo: no princípio não havia nada, apenas a mente divina. Contudo, as coisas que não existiam, na verdade existiam sem existir, ou seja, não existiam de fato mas existiam na mente de Deus. Eis que num dia em que não havia dias e num tempo em que não havia o tempo, Deus quis extrair toda a sabedoria que estava dentro de sua mente para criar o mundo. Mas que palavra poderia expressar a infinidade de pensamentos dentro de seu pensamento? Apenas uma Palavra eterna e infinita poderia fazê-lo. Eis então o momento em que pronunciara uma única Palavra que continha toda a sua sabedoria pois ela era a própria Sabedoria. Oh, big bang estonteante! Mal a Palavra explodira de sua boca, num estrondoso “fiat” (Gn 1,3), e o Universo se estremeceu com a vibração da voz divina. Por essa razão disse a Sabedoria: "O Senhor me criou, como primícia de suas obras, desde o princípio, antes do começo da terra." (Pv 8,22).

Mas, do sobredito, pode parecer que a Palavra era violenta e tenebrosa, contudo era doce e harmoniosa. Na verdade, Deus, artista supremo, cantou a Palavra eterna por meio de uma melodia sagrada, o Espírito Santo. Vejam que espetáculo! O tema inicial da sinfonia divina fora a Palavra eterna que, onde ressoava, fazia tudo novo: “O seu som ressoa e se espalha em toda terra.” (Sl 18,5). Mas o que torna o espetáculo mais colorido é que o tema inicial se desenvolve de formas ilimitadas pois a melodia divina do Espírito nunca se esgota em sua criatividade. Desse modo, quando as vibrações da voz divina se espalham pelo ar por meio dos sons, cada criatura canta e baila participando da celeste sinfonia. Oh, mistério portentoso! "Narram os céus a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra de suas mãos. O dia ao outro transmite essa mensagem, e uma noite à outra a repete." (Sl 18, 2-3). Diante disso, um frenesi assalta os corações das criaturas: o pica-pau reproduz o ritmo ao bicar a madeira, os peixes dançam, os papagaios cantam e todos os pássaros juntos, numa deslumbrante polifonia, reproduzem o grande acorde da canção de Deus de modo que cada criatura O louva ao seu modo (Dn 3, 57-81).

Por sua vez, a criatura humana capta as variações do tema divino de modo ainda mais perfeito: pelas leis da natureza, pela relação com o outro, pela ascese, pela lei natural, pela arte, pela busca da verdade e de muitos outros modos. Mas o modo mais perfeito do ressoar da Palavra é por meio da Palavra, ou seja, a Palavra de Deus, Jesus, é anunciada na Palavra escrita, razão pela qual a Sabedoria diz: "Todas as palavras de minha boca são justas [...]" (Pv 8,8). Ora, se a Palavra se espalha de tantos modos, havemos de considerar que tanto as palavras de Deus que ecoam nas criaturas quanto a Palavra escrita são variações que provém da mesma Palavra eterna. Logo, a pregação do Evangelho não se dá apenas pela leitura da Palavra escrita, como também da palavra espalhada pelo sopro divino. Mas, poderia alguém perguntar, de que outro modo poderíamos pregar a Palavra? Eis a grande maravilha: se cada criatura reproduz a Sabedoria simplesmente sendo o que é, assim também o homem prega sendo aquilo que Deus espera dele, ou seja, pelo testemunho e, de modo especial, pelo serviço aos outros.

Dessa maneira, a vocação presbiteral necessariamente começa na vocação diaconal pois o serviço é a grande pregação e apoteose que nos faz partícipes da sinfonia do Senhor. Em vista disso, celebramos no dia nove desse mês, às nove horas na igreja matriz de São Domingos do Prata, a ordenação diaconal do seminarista Francis sob o lema: “Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz.” (Jo 13,15). Com isso não poderia haver melhor modo de exemplificar o que dissemos, pois imitar o exemplo de Cristo nada mais é do que termos a honra de sermos convidados para também nós cantarmos ao Senhor um canto novo (Sl 97,1), o eterno canto de Deus. Em outras palavras, imitar o Cristo servidor é a grande pregação, não com palavras, mas com a vida. Desse modo, desejamos que o divino artífice faça do diácono Francis grande anunciador de suas maravilhas. Mais, que cada pequeno serviço seja uma nota a mais tocada para a sinfonia divina de forma que o diácono possa entoar com a sua própria vida um louvor ao Senhor com o batido do tambor e com a suavidade da cítara (Sl 149, 3), isto é, no ritmo da Sabedoria e na melodia do Espírito. Enfim, que as consonâncias de seu diaconato, Francis, o introduzam um dia ao celeste coro dos anjos para a derradeira sinfonia da Sabedoria eterna.

 


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Pedro de Paula Ferreira

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